25 de janeiro de 2017

Gay Surf Brazil reúne surfistas gays e lésbicas no sul do Brasil

Vou começar confessando. Não sou gay, sou lésbica, tenho uma “certa idade” (meninos na rua já me chamam de tia… há alguns anos) e sou surfista. Bem, na verdade, aspirante a surfista. Estou aqui para contar uma história – que seja a primeira de muitas – e, espero, quebrar paradigmas: como surgiu o Gay Surf Brazil.

Marta Dalla Chiesa sorridente depois de surfar no 1º dia do Gay Surf Brazil, na Rosa Sul - Foto: Divulgação/Thay Andrade

Marta Dalla Chiesa sorridente depois de surfar no 1º dia do Gay Surf Brazil, na Rosa Sul – Foto: Divulgação/Thay Andrade

Eu sempre quis ser surfista. Minhas primeiras lembranças do mar são lá dos meus 6-7 anos e meu pai me colocando em ondas numa prancha de isopor (joga no Google “planonda” pra saber o que era), da minha barriga assada de raspar no isopor com sal e areia e da felicidade de toda esta combinação.

Área de preservação da Praia do Rosa, em Santa Catarina - Foto: Divulgação/Thay Andrade

Área de preservação da Praia do Rosa, em Santa Catarina – Foto: Divulgação/Thay Andrade

Só que eu morava na Serra Gaúcha, há 2h do litoral e praia só uma vez por ano, com sorte. E eu era uma menina, não podia! Tudo conspirou contra.

Corta! Passam-se 20, (vai lá, 30+ anos) e eu acabo me mudando para Florianópolis (quem nunca quis?) para abrir a minha operadora de turismo gay-friendly, a Brazil Ecojourneys, pioneira nestas bandas, diga-se de passagem. Na minha lista de crise de meia idade constava: vou morar na praia! E vou surfar!

Marta Dalla Chiesa na aula de intermediários, no 3º dia do Gay Surf Brazil - Foto: Divulgação/Thay Andrade

Marta Dalla Chiesa na aula de intermediários, no 3º dia do Gay Surf Brazil – Foto: Divulgação/Thay Andrade

Comecei a fazer aulas e mais aulas de surfe. Quando criei coragem, comprei prancha, roupa de borracha e me atirei mar adentro.  Não tinha idade de surfista, nem gênero de surfista, nem “corpicho” de surfista.

Me senti totalmente alienígena.

Banho de final de dia na Lagoa do Meio, na Praia do Rosa (SC) - Foto: Divulgação/Thay Andrade

Banho de final de dia na Lagoa do Meio, na Praia do Rosa (SC) – Foto: Divulgação/Thay Andrade

Um dia, em 2013, recebo um e-mail de Thomas Castet, um francês que mora na Austrália e que tinha um portal chamado Gay Surfers. Gay + Surfers? WHAT?!

Thomas me contou de seu documentário sobre homofobia no surfe (Out in the Line Up – bárbaro!) e que, durante a filmagem deste, queria ter incluído surfistas brasileiros, já que o Brasil é a 3ª nacionalidade mais numerosa no portal, mas que nenhum – NEM UM – quis aparecer em frente da câmera.

Fim do 1º dia de aula do Gay Surf Brazil, na Rosa Sul - Foto: Divulgação/Thay Andrade

Fim do 1º dia de aula do Gay Surf Brazil, na Rosa Sul – Foto: Divulgação/Thay Andrade

Armário cheio no mar afunda, mas nem assim, conseguiu alguém. Fiquei chocada!

Eu, lésbica e aspirante a surfista, nunca pensei na homofobia no surfe e nem imaginava uma organização de surfistas gays (são milhares deles no GaySurfers.net!).

1ª aula dos iniciantes no Gay Surf Brazil 2016 - Foto: Divulgação/Thay Andrade

1ª aula dos iniciantes no Gay Surf Brazil 2016 – Foto: Divulgação/Thay Andrade

Desta descoberta e desta conversa, formamos uma parceria para criar um evento, uma “surf trip gay-friendly”, a qual ajudaria a financiar a edição final do documentário.

Daí nasceu o nosso Gay Surf Brazil.

Boys & girls no alongamento pré-aula do 1º dia dos intermediários no Gay Surf Brazil - Foto: Divulgação/Thay Andrade

Boys & girls no alongamento pré-aula do 1º dia dos intermediários no Gay Surf Brazil – Foto: Divulgação/Thay Andrade

Grupo de intermediários, 1ª sessão - Foto: Divulgação/Thay Andrade

Grupo de intermediários, 1ª sessão – Foto: Divulgação/Thay Andrade

Quando fizemos a primeira edição, veio gente dos Estados Unidos, Canadá, ArgentinaBrasil. De cara, descobri que tínhamos uma história em comum: alguns eram totalmente iniciantes que sempre sonharam em surfar, mas achavam o ambiente do surfe machista e hostil ao gays.

Outros eram surfistas que não se assumiam na água e, por isso, nunca ficavam totalmente à vontade no meio. Foi uma descoberta e tanto.

3º dia do Gay Surf Brazil: o dia de boas ondas no Rosa Sul - Foto: Divulgação/Thay Andrade

3º dia do Gay Surf Brazil: o dia de boas ondas no Rosa Sul – Foto: Divulgação/Thay Andrade

Passamos dias incríveis, entre aulas de surfe, onde todos apoiavam o avanço de cada um, sessões de ioga e de caipirinhas, tudo com o visual incrível da Praia do Rosa. Uma verdadeira viagem entre amigos. Foi libertador!

Desde então, foram três edições muito divertidas, muito reveladoras da diversidade que existe na nossa comunidade.

Descontração nas últimas orientações do Capitão antes da aula, no Gay Surf Brazil - Foto: Divulgação/Thay Andrade

Descontração nas últimas orientações do Capitão antes da aula, no Gay Surf Brazil – Foto: Divulgação/Thay Andrade

 

Alongamento antes da aula do 2º dia do Gay Surf Brazil - Foto: Divulgação/Thay Andrade

Alongamento antes da aula do 2º dia do Gay Surf Brazil – Foto: Divulgação/Thay Andrade

Vista da Praia do Rosa desde o canto Sul - Foto: Divulgação/Thay Andrade

Vista da Praia do Rosa desde o canto Sul – Foto: Divulgação/Thay Andrade

Gays não gostam de esportes, diz o estereótipo. Tem gay para tudo, eu digo.

E a 1ª onda a gente nunca esquece. Achei minha tribo.

 

Gay Surf Brazil 2017

Em 2017, vamos fazer nossa 4ª edição do Gay Surf Brazil, com surfistas (e aspirantes) do Canadá, México, EUA, AlemanhaArgentinaBrasil.

Lagoa do Meio, na Praia do Rosa (SC), base para a 1ª aula dos iniciantes - Foto: Divulgação/Thay Andrade

Lagoa do Meio, na Praia do Rosa (SC), base para a 1ª aula dos iniciantes – Foto: Divulgação/Thay Andrade

Baía da Praia do Rosa (SC), umas das 30 mais lindas baías do mundo - Foto: Divulgação/Thay Andrade

Baía da Praia do Rosa (SC), umas das 30 mais lindas baías do mundo – Foto: Divulgação/Thay Andrade

Uma semana para aprender a surfar ou melhorar o seu surfe entre amigos. Vem brincar com a gente!

Para todos os detalhes (incluindo a programação) do nosso surf camp Gay Surf Brazil, acesse esse link.

 

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Sobre Marta Dalla Chiesa

Marta Dalla Chiesa

Marta Dalla Chiesa é colunista do Viaja Bi!. Por ser uma lésbica apaixonada por turismo outdoor, criou a Brazil Ecojourneys e foi presidente da ABRAT GLS, associação de turismo LGBT. É PhD em biologia bioquímica e molecular no Imperial College London, mas trabalha com turismo desde o ano 2000. Mora em Florianópolis e é idealizadora do evento Gay Surf Brazil, evento na Praia do Rosa. Todos os posts da Marta.

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2 Comentários

  • Harley Flausino
    2017-01-26 16:09

    Uau! Adorei sua história, Marta! Emocionante e inspiradora.

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