29 de outubro de 2016

Gays devem viajar para países homofóbicos?

A questão é polêmica: lésbicas, transsexuais, travestis, bissexuais e gays devem viajar para países homofóbicos e/ou transfóbicos? Não é tão simples responder com um “sim” ou um “não”, mas temos que levar vários pontos em consideração.

Antes de mais nada, ainda na fase de planejamento, é importante fazer uma pesquisa pra saber como o seu destino de férias trata a comunidade LGBT local. Importante não pra saber o que pode acontecer com você, mas pra entender o que aquele grupo, que vive naquele país ou cidade, passa. Até porque você, como turista, provavelmente será tratado de forma diferente.

Explosão de cores do Beco do Batman, em São Paulo - Gays devem viajar para países homofóbicos?

Explosão de cores do Beco do Batman, em São Paulo

Imagine só: você é nascido no Egito, um país notadamente homofóbico, e é dono de um pequeno hotel, com frequência hétero, claro, pois você acha que é errado essa coisa de dois homens ou duas mulheres dormirem juntos! Mas, de repente, você começa a receber uma vez ou outra um casal gay ou lésbico. Você recusa, claro. Aí aparecem mais outros. E você recusa novamente, mas começa a pensar que a ocupação do seu hotelzinho não está tão alta, então, você está perdendo dinheiro. Mas quando aparece mais um casal, você recusa mais uma vez.

Até chegar o momento de que o ser humano entra em conflito com o empresário. Seus conceitos dizem que aquilo não é certo. Mas recusar hóspedes e atrasar o pagamento da sua cozinheira, pois a conta não está fechando também não é certo pra você, que é uma pessoa de bem e sempre quis ajudar ao próximo e quer o bem dos demais. Mas receber essa aberração, que vai ficar nas camas do SEU hotel, transar lá, no chão, pelas paredes, na janela, no lustre, que morte horrível!!!

Mas você acaba sendo misericordioso e cedendo. Aceita o casal gay, Brad e Tom, que procura pelo seu hotel. Mas você firmemente se recusa a dar uma cama de casal e fala que, no máximo, poderá juntar duas de solteiro. É o que tem pra hoje! O casal, mesmo contrariado, aceita a proposta. E você quase se arrepende na mesma hora que fecha a porta do quarto deles. Imagina se os outros comerciantes da rua e do bairro ficarem sabendo do tipo de gente que você está hospedando… Seu hotel vai ficar com uma marca eterna!

No café da manhã do dia seguinte, você olha meio torto pros dois, mesmo tentando esboçar aquele sorriso amarelo, já que você tem que tratar bem seus hóspedes, apesar de eles não merecerem. Eles, sujos como Deus os fez, parecem nem notar e respondem com um sorriso sincero de quem teve uma noite ao lado de quem ama. Como se eles pudessem se amar. Pervertidos!

 

🌈Leia mais: Os 20 países mais homofóbicos do mundo

 

Mas no decorrer daquela semana que eles ficaram por lá, foram tão simpáticos com você, tão sorridentes, apesar da sua cara sempre fechada. Mas é errado!

Passadas algumas semanas desde que aqueles imundos foram embora, um casal de lésbicas pede um quarto de casal. Para tentar já afugentar essas duas, você pergunta de modo relativamente ríspido a pergunta que faz sempre sorridente para seus hóspedes héteros: “e como vocês ficaram sabendo do hotel?”. E fica com a cara no chão quando elas respondem que “nossos amigos, Brad e Tom, estiveram aqui há algumas e recomendaram seu hotel, elogiaram o café da manhã e a localização, pois é próximo de alguns bares LGBT da cidade e, como não temos filhos até agora e gostamos de gastar nosso dinheiro com viagens, resolvemos antecipar nossas férias e seu hotel foi a primeira opção”.

E depois delas, apareceram outros… E mais outros… Os comerciantes ao redor começaram a achar estranho que o hotel, que tinha uma frequência hétero, mas uma ocupação mediana, começa agora a ficar mais colorido e mais movimentado. E começam a pensar que, talvez não seja tão ruim assim atender esse público e ter uma melhora de renda.

E assim, pode se iniciar uma mudança na região. É, claro, que estou falando de passos de formiga e de muitos anos de transformação. E, é óbvio, que alguns lugares não tem essas regras diferentes nem para os turistas, então tem que sempre se pesquisar bem as leis do seu destino em relação aos LGBTs para precaver.

 

🌈Reserve seu hotel

 

Deixando sua marca em países homofóbicos

Além do interesse financeiro, que pode movimentar o trade turístico de um desses países homofóbicos, há também o apoio à comunidade local, que muitas vezes vive reprimida. O carinha que vive com medo de se expor e mora perto do seu hotel, no exemplo acima, vai sentir uma injeção de ânimo e esperança ao ver cada vez mais LGBTs circulando pelo seu bairro. E isso, mesmo que silenciosamente, dará mais força pra ele enfrentar todas as barras a que está destinado.

Viajando nessa situação, também é legal buscar empreendimentos que sejam declaradamente gay-friendly ou que tenha os donos como LGBTs, pois isso também fortalece a diversidade no destino. Obviamente, devemos prezar pela qualidade do serviço prestado, até porque estamos sempre gastando muito pra só chegar nos lugares, mas sempre que pudermos, devemos dar essa oportunidade a quem levanta nossa bandeira a um preço muito mais alto do que pagamos. Porque depois que pegamos o voo de volta pra casa, aquele cidadão continua lá, lutando todos os dias pra que mais gente como nós possa ser bem recebida em seu país, em sua cidade.

 

🌈Leia mais: 4 motivos pra casais gays viajarem pra Ásia

 

Bis, o caminho é longo, mas está em nossas mãos também fazer isso, seja fora do Brasil ou aqui mesmo, em tantas cidades que ainda estão tão atrasadas nesse sentido. Muitas vezes, você chega às suas férias e quer só curtir, não quer parar pra pensar sobre isso, mas porque não unir as duas coisas? Ser um gay viajando já é um ato político e de representatividade. Sendo para países homofóbicos, então, isso aumenta exponencialmente.

Não estou aqui fazendo campanha pra você ir ao Afeganistão com uma bandeira do arco-íris fazer beijaço na porta dos templos religiosos. Calma! Mas considere novamente aquele destino que você gostaria de conhecer, mas tinha tirado da sua lista por conta das notícias contra gays por lá. Se não for um lugar extremista, pode ser uma boa oportunidade de trilhar um caminho mais tranquilo para os gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros de amanhã.

E você, o que acha? Deixe seu comentário e fomente essa discussão tão importante e essencial!

 

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Tem alguma outra dicas sobre países homofóbicos? Deixe nos comentários pra ajudar outros viajantes!

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Sobre Rafael Leick

Rafael Leick

Publicitário e blogueiro, foi palestrante em seminários internacionais no Peru, a convite dos órgãos de turismo locais, falando sobre planejamento de comunicação e diversidade, com foco na temática LGBT. Morou em Londres e, aos 31 anos, conhece 22 países. Escreve para o Viaja Bi!, Viagem Primata e ExploraSampa. Todos os posts do Rafael.

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2 Comentários

  • Clovis Casemiro
    2016-10-29 19:55

    Rafa Parabéns pois você tocou num ponto que está em discussão em vários grupos gays pelo mundo.
    Viajar com certeza apóia os Gays locais, desde que você saiba respeitar as leis locais.
    Afinal é importante entender a cultura local.

    Estive no Cairo num cruzeiro da Atlantis Events que freta saídas para gays. Éramos cerca de 2.000 gays. Na noite anterior à atração em Alexandria todos foram ao teatro do navio para ouvir explicações de como se portar, beijos e abraços só no retorno, sem roupas apertadas ou curtas, cores exageradas, mas o básico era manter respeito pelo país.
    Quando descemos para as excursões haviam centenas de ônibus nos aguardando para as várias excursões. A cada 3 ônibus havia um carro da polícia. Internamente segurança armado. Uma enorme estrutura.
    Tudo correu perfeitamente bem. Nossa guia chegou a se emocionar no retorno, pois viu que todos respeitaram os templos, as tradições do lugar, e à ela também. Mas está foi a última ida da Atlantis, em 2009.

    Também fomos no cruzeiro do Báltico, com parada em San Petersburgo na Rússia. E visitamos esta belíssima cidade. Mais de 1.500 gays. E correu tudo bem. Incluindo uma festa na Disco Gay local.

    E a trabalho fui aos Emirados Árabes, vi alguns casais gays nos hotéis e tours.

    Ou seja, viajar também significa entender e respeitar tradições e costumes. E se possível conhecer os Gays locais, que saberão dar as dicas necessárias.
    Abraços a todos.
    Have a Safe Trips.

    • Rafael Leick
      2016-10-29 20:04

      Oie, Clovis, obrigado por compartilhar essas histórias.
      É importantíssimo se fazer ver, mas também, como você bem mencionou, respeitar as leis locais. No choque, as coisas talvez não mudem pro bem e nem por bem.
      E que ótimo saber que, mesmo timidamente, essas comunidades resistem nesses locais tão avessos a elas.
      Beijos!

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